Como uma compradora compulsiva se curou depois de gastar meio milhão de reais em 20 anos
- Lucas Carvalho
- 9 de jul.
- 4 min de leitura
Será possível gastar meio milhão de reais em roupas, sapatos, bijuterias e maquiagens ao longo de 20 anos? Por mais impressionante que pareça, essa foi a realidade vivida por Mariana Brasil, advogada carioca que, entre 2004 e 2024, enfrentou um ciclo intenso de compras compulsivas, dívidas e tentativas de recomeço.
A situação chegou ao limite em setembro de 2022, quando Mariana acumulava dívidas em bancos, cartões de crédito, empréstimos e cheque especial. Sem dinheiro na conta e sem condições de continuar comprando, ela percebeu que precisava dar um basta. A partir daquele momento, começou um processo difícil de reconstrução financeira e emocional.
Mesmo tendo interrompido as compras desenfreadas em 2022, Mariana só conseguiu quitar suas últimas dívidas em maio de 2024. Para celebrar o fim desse ciclo, comprou um bolo, abraçou o filho e cantou parabéns com ele. Mais do que uma comemoração, aquele momento simbolizou o início de uma nova fase.
Uma relação com o dinheiro marcada por mudanças
A história de Mariana com o dinheiro começou em uma realidade confortável. Na infância, morava na Lagoa, no Rio de Janeiro, estudava em boas escolas e tinha acesso a uma vida de alto padrão, sustentada pelo trabalho do pai empresário.
No entanto, essa realidade mudou quando seu pai faliu. A estabilidade financeira da família foi abalada, e Mariana e sua mãe passaram a vender roupas em uma loja de shopping. Essa mudança brusca marcou sua trajetória e influenciou sua relação com consumo, dinheiro e segurança.
O começo do descontrole
Durante alguns anos, Mariana dividiu sua rotina entre o trabalho na loja do shopping e a faculdade de Direito na PUC-Rio, onde estudou com bolsa integral. Aos 24 anos, após se formar, passou a trabalhar no departamento jurídico de uma grande empresa.
Foi nesse novo ambiente profissional que o consumo começou a ganhar força. A necessidade de se vestir bem e se adequar às exigências do cargo fez com que Mariana passasse a comprar com frequência. Roupas, sapatos, bolsas, bijuterias e maquiagens começaram a fazer parte de uma rotina cada vez mais difícil de controlar.
Com o tempo, ela percebeu que o prazer não estava exatamente nos objetos comprados, mas no ato de comprar. A sensação momentânea de satisfação escondia um problema mais profundo, que logo se transformaria em um ciclo de endividamento.
Quando o crédito virou armadilha
À medida que as compras aumentavam, o crédito passou a fazer parte da rotina. Mariana utilizava cheques pré-datados, vários cartões de crédito, empréstimos em diferentes bancos e, por fim, o cheque especial.
O resultado foi um descontrole financeiro cada vez maior. Ela chegou ao ponto de não ter sequer R$ 15 na conta, enquanto mantinha um armário abarrotado de roupas, muitas delas nunca usadas e ainda com etiqueta.
Envergonhada pela situação, começou a revender suas próprias peças para amigas. Para esconder que aquelas roupas eram dela, dizia que estava apenas ajudando uma amiga a vender.
O basta final
Depois de duas décadas de consumo compulsivo, Mariana chegou ao limite. Estava sem dinheiro, com o nome negativado, muitas dívidas acumuladas e duas execuções bancárias. Foi então que decidiu enfrentar a situação de frente.
O processo exigiu coragem, organização e disciplina. Ela começou a reunir todas as dívidas, fazer contas, renegociar com os bancos e pagar uma pendência de cada vez. Mariana estima ter gasto pelo menos meio milhão de reais em compras desnecessárias ao longo dos anos, sem construir patrimônio.
A recuperação, no entanto, não dependia apenas de quitar dívidas. Era preciso também se afastar dos gatilhos que alimentavam o consumo. Por isso, ela deixou de frequentar shoppings, parou de acompanhar conteúdos de moda e bloqueou vendedoras que enviavam ofertas pelo WhatsApp.
No fim de 2023, Mariana usou um bônus recebido no trabalho para quitar uma parte importante das dívidas. Cinco meses depois, em maio de 2024, pagou a última parcela que ainda restava. Aquele pagamento marcou o encerramento de um ciclo doloroso e o começo de uma nova vida.
Só por hoje
Hoje, Mariana comemora três anos sem recaídas nas compras compulsivas. Ainda assim, ela não trata sua recuperação como algo definitivo. Para ela, estar bem exige vigilância constante, cuidado emocional e atenção aos próprios comportamentos.
Entre os hábitos que ajudam nesse processo estão a terapia, o acompanhamento médico e psiquiátrico quando necessário, a prática de exercícios físicos, uma rotina mais saudável e a mente ocupada.
Mariana também decidiu transformar sua experiência em apoio para outras pessoas. Iniciou uma pós-graduação em neurociência para entender melhor os caminhos da mente humana e criou um perfil no Instagram para compartilhar sua trajetória, seus desafios e dicas para quem também enfrenta excessos no consumo.
Depois de se desfazer de quase tudo que acumulava, hoje vive com um armário reduzido, mantendo apenas o que realmente usa. Também passou a pensar com muito mais cuidado antes de comprar qualquer coisa.
A história de Mariana mostra que a recuperação financeira não começa apenas nas contas. Ela começa, principalmente, na decisão de olhar para os próprios hábitos, reconhecer os gatilhos e reconstruir, passo a passo, uma relação mais consciente com o dinheiro.
Mais do que deixar de comprar, Mariana aprendeu a escolher a si mesma.





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