E o Ibovespa só cai: não foi por falta de aviso
- Lucas Carvalho
- 17 de jul.
- 4 min de leitura
Nas últimas semanas, a bolsa brasileira enfrentou uma forte queda, pressionada principalmente pela saída de investidores estrangeiros.
Em cerca de um mês e meio, aproximadamente 25% de todo o capital estrangeiro investido no país ao longo do ano deixou o mercado. Esse movimento contribuiu para que o Ibovespa recuasse de aproximadamente 199 mil para 176 mil pontos.
A intensidade da queda chama atenção porque, pouco tempo antes, diversos bancos e casas de análise recomendavam a compra de ações brasileiras com uma visão de longo prazo. Naquele momento, os riscos políticos, fiscais e eleitorais eram frequentemente tratados como questões secundárias ou já consideradas nos preços dos ativos.
Relatórios afirmavam que as eleições não alteravam a visão estrutural positiva para o Brasil, enquanto grandes instituições internacionais apresentavam o país como uma das principais oportunidades de investimento da América Latina.
Uma alta sustentada por fluxo, não por fundamentos
Na Way Investimentos, essa visão excessivamente otimista sempre foi recebida com cautela.
A avaliação era de que a valorização da bolsa brasileira estava relacionada principalmente a um movimento de realocação global de portfólios, e não ao reconhecimento de melhorias estruturais na economia brasileira.
Em outras palavras, o capital estrangeiro estava entrando no Brasil em busca de oportunidades momentâneas, mas isso não significava necessariamente confiança de longo prazo nas condições econômicas do país.
A projeção da Way para o Ibovespa no período atual era de aproximadamente 176,5 mil pontos, nível muito próximo daquele alcançado após a recente correção.
O risco político voltou a ser relevante
Muitos investidores podem ter sido atraídos por análises que minimizaram os riscos políticos, eleitorais e cambiais.
Entretanto, após a divulgação do áudio envolvendo o candidato Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, parte do mercado passou a considerar mais provável uma reeleição do presidente Lula.
A mudança de comportamento gera uma contradição. Antes, algumas análises afirmavam que o resultado eleitoral pouco importava para a bolsa brasileira. Agora, as expectativas relacionadas à eleição passaram a influenciar diretamente os preços dos ativos.
Se o cenário político realmente não era relevante, por que passou a provocar tanta preocupação?
Narrativas otimistas versus realidade econômica
Parte do mercado passou a defender que uma eventual reeleição de Lula não exigiria mudanças relevantes na política econômica.
Essa visão era sustentada por fatores externos considerados favoráveis, como a posição do Brasil como exportador líquido de petróleo, a aproximação com os Estados Unidos, a disponibilidade de terras raras, o acordo com a União Europeia, a relação comercial com a China, o baixo desemprego e o crescimento próximo de 2%.
Na análise da Way Investimentos, porém, o mercado passou a operar mais com narrativas do que com fundamentos.
Enquanto as teses otimistas ganhavam manchetes, os indicadores fiscais continuavam se deteriorando silenciosamente.
Os fundamentos que não poderiam ser ignorados
As variáveis macroeconômicas são fundamentais para compreender o comportamento da bolsa e dos demais ativos brasileiros.
Entre os principais pontos de preocupação estão:
* o déficit primário recorrente;
* o crescimento das despesas públicas acima da inflação;
* o elevado custo dos juros da dívida;
* o déficit nominal próximo de 9% do PIB;
* a alta remuneração exigida pelos investidores para financiar o governo;
* o crescimento da relação entre dívida pública e PIB;
* os juros elevados para famílias e empresas;
* a inflação próxima do limite da meta;
* o alto número de brasileiros endividados;
* e as dificuldades financeiras enfrentadas por empresas tradicionais.
Na avaliação apresentada, o arcabouço fiscal não conseguiu demonstrar capacidade suficiente para estabilizar a trajetória das contas públicas.
O investidor estrangeiro pode até aceitar algum nível de instabilidade política em mercados emergentes. O que dificilmente será ignorado por muito tempo é uma trajetória crescente de dívida pública, acompanhada de juros estruturalmente elevados e de um crescimento dependente dos gastos governamentais.
Em algum momento, essa conta aparece.
O risco da dominância fiscal
Caso não sejam realizadas mudanças relevantes, o país poderá se aproximar de um cenário de dominância fiscal.
A dominância fiscal ocorre quando o desequilíbrio das contas públicas se torna tão grande que passa a limitar a atuação da política monetária. Nesse ambiente, aumentar os juros para combater a inflação pode elevar ainda mais o custo da dívida pública, reduzindo a capacidade do governo de organizar suas finanças.
Esse é um risco que não deveria ser ignorado por quem investe no mercado brasileiro.
Ativos baratos nem sempre representam oportunidade
Existe uma diferença importante entre um país possuir ativos temporariamente baratos e permanecer descontado por razões estruturais.
Múltiplos baixos não representam automaticamente uma oportunidade de investimento. Em muitos casos, eles apenas refletem uma percepção elevada de risco.
O Brasil negocia com desconto há anos porque os investidores exigem um prêmio maior para financiar um Estado caro, pouco eficiente e com dificuldades para estabilizar sua trajetória fiscal.
Não existe valuation suficientemente atrativo para eliminar completamente esses riscos.
É preciso olhar além dos slogans
No fim, o investidor precisa decidir se pretende seguir as frases otimistas dos relatórios ou analisar os fundamentos com maior profundidade.
Na Way Investimentos, a preferência continua sendo avaliar conjuntamente o fluxo de capital, os juros, a dívida pública, o câmbio, a inflação, o resultado fiscal e o comportamento histórico da bolsa durante períodos eleitorais.
O mercado pode ignorar os desequilíbrios econômicos por algum tempo. No entanto, dificilmente conseguirá ignorá-los para sempre.
A recente queda do Ibovespa mostra que o entusiasmo sem fundamentos pode gerar consequências importantes para quem investe sem considerar todos os riscos envolvidos.





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